domingo, 22 de dezembro de 2019


Terror qualquer

De uns meses para cá fui assomado a percepção fatalista da existência, mas não fiz isso voluntariamente, fiz isso com a colaboração de programações que me induziam crer que o mundo estava caminhando para o caos iminente.

Então minha mente começou a assimilar essas projeções catastróficas, ao ponto que não conseguia mas dissuadir da realidade essas imagens do fim, fazendo com que minha existência ficasse cada vez mais perturbada. Além de ficar em estado de pavor e atenção constante, ainda havia a intenção metal de superioridade, tendo que poucos sabia do que se tratava o fim iminente da civilização.

Quando andava nas ruas para fazer alguma coisa, meu comportamento era outro, o que havia em mim era um temor e sentimento de derrota, “o mundo vai acabar” e o que poderia fazer.

Observava a existência comum e as pessoas seguiu pacificas, mas era estranho pois mesmo assim eles também tinham algo de estranho nas suas ações. Será que era não era só eu que estava alucinado. Talvez eles estivessem nos seus recintos também observando esses tipos de mensagens, e com medo de tratar em público conversavam isolados sobre esses assuntos.

A verdade é que havia uma atmosfera de temeridade que estava pouco a pouco grassando a alegria e a verdade.

É importante pensar que esses sentimentos de desgraça não eram incomuns, todos anos surgia alguma coisa a se temer. Mas nos anos passados a ideia sobre esse pânico tomou proporções alucinantes, muito devido a ampla divulgação de teses, imagens e vídeos, que assim promovia esse pânico.

Também havia quem pessoas que não se importasse com isso. Pessoas que quando alarmadas diziam, isso é coisa para nos deixar estressados. Para nos deixar em pavor. Para que medidas centralizadas possam ser implementadas a fim de pacificar o povo.

Então havia na sociedade esses crédulos e incrédulos. Eu estava entre os que acreditavam. Observava vídeos catastróficos, e pessoas que estudavam assuntos diversos, alertando para a violência que estaria por vir. Mas então comecei a ouvir outros também, aqueles que diziam que era apenas temeridade desnecessárias, e esses pareciam ingênuos, e descrentes da miséria humana, ou melhor, acreditavam na miséria, mas há que pudesse ser superada.

Mas ao mesmo tempo observava nos que divulgava o temor, o alerta sobre forças ocultas que se expandiam sobre a existência, forças essas além da compreensão, controladores das economias, e divulgadores propagadores do caos, e que não pareciam ser meras coincidências. Estava acontecendo neste período, diversas ondas de agressão. Era o que se divulgava, a miséria e o sofrimento muitas vezes eram explorados pela mídia, e poderia haver pessoas com dinheiros bancando essas ondas de temeridade e pânico. Como disse, a mídia comercia, aquela mídia, que divulgava nas televisões e jornais, tinha interesse em criar essa atmosfera de pânico? Ou eram apenas relatoras da história contemporânea.

Então comecei a ter náuseas, e sonhos estranhos. Pesadelos de mortes, corpos, pobreza e miséria. A minha mente estimulada pelo pânico, e o vício que vinha absorvendo fizeram meus pensamentos produziram esse mal-estar em meu corpo e mente.

Em uma noite que chovia bastante. E os pesadelos tomavam minha mente, meus sonhos de desgraça e o suor frio, eu não acordava. Uma sufocação, aperto no peito, o terro na minha imaginação. O mundo desabando, e o controle da vida nas mãos do governo, o estado reprimindo as manifestações, corpos no chão, pessoas sofrendo. O dinheiro não valendo nada, nada para comer, as prateleiras vazias, decadência e ruina da civilização.

Acordei as três da madrugada, e a chuva era pesada, uma tempestade que caia e raios que também estouravam com seus trovões. Tomei um copo d’água e sentei, próximo da janela observando o tempo, a chuva fazia seus reflexos na luz, até que faltou a energia.

No escuro somente o céu com seus raios e trovões brilhavam. As vezes caiam raios que fazia tremer o chão. Pensei que o fim de mundo estava se aproximando e que aquilo, aquela tempestade era o seu preludio, que no amanhecer o terror estaria instalado.

Então, uma forte vertigem me abalou, e me fez tombar.    

Acordei, com a TV ligada, e chiando em um canal fora do ar. Chovia, mas não com a força que tinha durante a noite. Sentei, e pensei que deveria para de pensar e que deveria voltar meus estudos e trabalho para coisas menos catastróficas, pensei que agora era desnecessário pensar em cataclismos, que deveria me preparar, me munir de certezas e de habilidades, de um pensamento calmo, para que o terror não me levasse a cometer erros involuntários.

A lição que tirei dessa aventura dos pensamentos catastróficos, é que as ideias obsessivas podem nos tornar frustrados, e autodestrutivos. E que poderia ser outra pessoa, mas otimista, e menos preocupada e que poderia estar aliando meu tempo a afazeres e a liberdades de ações. Os pensamentos quando são condicionados para a decadência faz com que nos tornamos decadentes, e sorumbáticos. É preciso dividir, é preciso saber diferenciar a realidade, e entender como funciona as ligações.

Enquanto a TV que estava ligada, ela deve ter ligado quando voltou a energia. E por estar num canal fora do ar, era provável que as emissoras ainda não tinham ainda ligado.

A humanidade está em transição, quando antes não tínhamos conhecimentos difundidos dessa forma, quando não tínhamos inteligências ampliadas, ficávamos a mercê de poucos meios de informação, e poderia ser que o terror era amenizado, ou não. A verdade é que a realidade não mudou, as pessoas continuam a viver à sua maneira, e evitando sempre que possível o conflito, pelo menos aqui, a evitar a catástrofe. E essa é a razão pelo qual ainda estamos nos mantendo civilizados.

Aconteceu ao meu ver, a quebra de um paradigma antigo, o paradigma do monopólio da informação e do saber, o mundo, ou melhor, a percepção ampliada do mundo agora estava divergindo contra uma massa de inteligências não programadas, que desvinculadas agora, poderia quebrar o monopólio das mentes e com isso, promoviam o caos no imaginário. E que por sua vez enfrentava um problema de relações com o grande público que agora aprimorava seus saberes individuais.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

sonhos pesados


até ela tinha olhos famintos
mas sabia conter seus lábios quando mordia
sentir era na pele que derivava as causas
amor e sentimentos que desdobravam em sua sombra


havia o luar brilhando
e ela sentia a vitória
o grande desejo sempre eterno
de beleza que tinha e nunca havia deixado
desde que soube amar a si


a beleza eterna e distante
a agua que banhava o sol
e fazia os traços de seu corpo
as curvas banhadas pela alegria


que ela tinha em viver

domingo, 15 de dezembro de 2019

verdes e sinceras no apagão


Quando tomou o livro emprestado da dona Claudia, ela disse antes de ele abrir a porta para sair, que poderia ficar com ele e disse também, que não amava mais o tempo como antigamente e que esperava amar o café quente adocicado.
No caminho pensou um pouco no que ela havia dito, ela sempre falava coisas que só fazia sentido quando estava sentada na mesa tomando café e desenhando traços, não medias palavras para escrachar seu descontentamento com os absurdos do mundo contemporâneo e culpava os professores pela decadência da vida humana. Eu achava isso uma perda de tempo, essas reclamações dela, mas ela sempre estava disposta comentar outros tipos de coisas e filosofias. A mulher apesar de ter uma formação em licenciatura portuguesa, tinha apreço pela inteligência que acumulara com as leituras que fez fora da faculdade. Era isso um paradoxo. Ela tinha dado aulas por vinte anos, e descobriu então que fazia parte de uma miséria acobertada por demagogos e pedantes cheios de retoricas politicas. E para ela isso era o problema. O amor ao questionamento havia sido delimitado por ordens externas e regressivas.


O livro que ela me deu se chamava "torre do céu e carmesim" era de um autor africano, o livro segundo ela me disse foi baseado num tempo de guerra tribal da antiguidade. Um conto sobre sonhos e pássaros gigantes e girafas que viviam em montes e brilhavam na luz do sol. Quando ela me falou sobre isso, fiquei admirado, eu gostava de ler, fazer leituras do mundo me dava um prazer enorme. Foi por isso que peguei o livro.


Sempre que terminava um livro ia até ela, que sempre me oferecia boa proza, e lanche. Ela gostava de mim e disse um dia que se casaria comigo se não fosse uma velha, e que quando a filha dela se tornar solteira, vai ser eu a sua primeira indicação. "Gosto de homens que leem" foi o que ela disse. Seu marido já havia falecido e encontrado a paz foi o que disse, ele dizia, era perturbado com o universo das coisas também, quando não estava pintando era resmungando alguma coisa contra o estado ou contra politiqueiros. Ela sabia por que aprendera com ele, a estrutura do universo, e por isso herdou essas angustias, mas nela ainda era leve, quase como um prazer de não ter nada melhor para pensar, por isso soltava umas guerras, mas seu coração era de paz, e nunca arranjava briga na rua. Sua educação literária permitiu se conter e somente agir com garra em momentos certos para batalha.


Para jovens destruídos ela buscava dar o mínimo de orientação, para que não agissem como mandam os burocratas do ensino. E assim adquiriu alguns entusiastas de sua palavra. Enquanto emprestava livros para eles.


Atravessando a rua num sábado, fui até a praça comer pastel, sentar e tomar refrigerantes, para poder também abrir o livro e já começar a apreciar a leitura.


Com o pastel na mão, na primeira mordia a energia da cidade sofre um apagão. Ainda era tardinha mas brevemente iria escurecer. O sol ia se pondo e jogava seus últimos raios no verde do gramado que ficava num monte. Fiquei observando isso, e pensei no que dona Claudia havia dito sobre a frase de seu marido, " a beleza encontra paz até mesmo quando a noite vem". Me pareceu interessante, essas palavras para o momento. Seu marido era um amante da vida foi o que disse, e que lia vorazmente qualquer coisa do mundo, e sabia que podia ser mais lendo e escrevendo, decifrando o enigma da existência e da realidade. Ele sabia que amor era uma formula de paz. E mesmo assim era algo que deveria ser recordado sempre, e nunca esquecido ou diminuído. Era nas palavras e nos romances que podia descobrir o segredo do mundo, e dos humanos, o segredo para ter paz, ação, liberdade e paixão.


          

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

passagens


uma terra que vira
sobrepondo os sonhos da vontade
a eterna vontade de um mar
que podia ser e que podia estar


mas espera nas margens
as passagens da lua onde pode deitar
o som da luz que quebra o canteiro de flores
fazendo auroras de séculos brilharem


na noite que respira
o desejo de uma calma além
e se ela permanecer no sulco do céu
a capa da noite que te abrace deitando


vinhas de calor
os olhos perdidos do amor
passagens de horas esquecidas
que poderia ser uma só razão para ficar


mas que ainda sejam ilusões
poderia ser verdades se pudesse
desmerecer aquilo tudo que tem
como castelos de areias firmados em pedras macias
a agua que ali alcança
são visões de universos
que nascem e morrem na lembrança
do que não foi vivido