domingo, 15 de dezembro de 2019

verdes e sinceras no apagão


Quando tomou o livro emprestado da dona Claudia, ela disse antes de ele abrir a porta para sair, que poderia ficar com ele e disse também, que não amava mais o tempo como antigamente e que esperava amar o café quente adocicado.
No caminho pensou um pouco no que ela havia dito, ela sempre falava coisas que só fazia sentido quando estava sentada na mesa tomando café e desenhando traços, não medias palavras para escrachar seu descontentamento com os absurdos do mundo contemporâneo e culpava os professores pela decadência da vida humana. Eu achava isso uma perda de tempo, essas reclamações dela, mas ela sempre estava disposta comentar outros tipos de coisas e filosofias. A mulher apesar de ter uma formação em licenciatura portuguesa, tinha apreço pela inteligência que acumulara com as leituras que fez fora da faculdade. Era isso um paradoxo. Ela tinha dado aulas por vinte anos, e descobriu então que fazia parte de uma miséria acobertada por demagogos e pedantes cheios de retoricas politicas. E para ela isso era o problema. O amor ao questionamento havia sido delimitado por ordens externas e regressivas.


O livro que ela me deu se chamava "torre do céu e carmesim" era de um autor africano, o livro segundo ela me disse foi baseado num tempo de guerra tribal da antiguidade. Um conto sobre sonhos e pássaros gigantes e girafas que viviam em montes e brilhavam na luz do sol. Quando ela me falou sobre isso, fiquei admirado, eu gostava de ler, fazer leituras do mundo me dava um prazer enorme. Foi por isso que peguei o livro.


Sempre que terminava um livro ia até ela, que sempre me oferecia boa proza, e lanche. Ela gostava de mim e disse um dia que se casaria comigo se não fosse uma velha, e que quando a filha dela se tornar solteira, vai ser eu a sua primeira indicação. "Gosto de homens que leem" foi o que ela disse. Seu marido já havia falecido e encontrado a paz foi o que disse, ele dizia, era perturbado com o universo das coisas também, quando não estava pintando era resmungando alguma coisa contra o estado ou contra politiqueiros. Ela sabia por que aprendera com ele, a estrutura do universo, e por isso herdou essas angustias, mas nela ainda era leve, quase como um prazer de não ter nada melhor para pensar, por isso soltava umas guerras, mas seu coração era de paz, e nunca arranjava briga na rua. Sua educação literária permitiu se conter e somente agir com garra em momentos certos para batalha.


Para jovens destruídos ela buscava dar o mínimo de orientação, para que não agissem como mandam os burocratas do ensino. E assim adquiriu alguns entusiastas de sua palavra. Enquanto emprestava livros para eles.


Atravessando a rua num sábado, fui até a praça comer pastel, sentar e tomar refrigerantes, para poder também abrir o livro e já começar a apreciar a leitura.


Com o pastel na mão, na primeira mordia a energia da cidade sofre um apagão. Ainda era tardinha mas brevemente iria escurecer. O sol ia se pondo e jogava seus últimos raios no verde do gramado que ficava num monte. Fiquei observando isso, e pensei no que dona Claudia havia dito sobre a frase de seu marido, " a beleza encontra paz até mesmo quando a noite vem". Me pareceu interessante, essas palavras para o momento. Seu marido era um amante da vida foi o que disse, e que lia vorazmente qualquer coisa do mundo, e sabia que podia ser mais lendo e escrevendo, decifrando o enigma da existência e da realidade. Ele sabia que amor era uma formula de paz. E mesmo assim era algo que deveria ser recordado sempre, e nunca esquecido ou diminuído. Era nas palavras e nos romances que podia descobrir o segredo do mundo, e dos humanos, o segredo para ter paz, ação, liberdade e paixão.


          

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