sábado, 1 de agosto de 2020

Ela me chamava

De grande garoto ela me chamava. Depois de voltar da sala de aula, daquele espaço suado, quente e abafado, depois de horas não aprendendo nada de especial. Nada que pudesse me ser responsável, de passar o tempo olhando e admirando a menina dos meus sonhos, que transitava entre os corredores da escola. E também na sala desfilava deixando todos espertos. Eu calado. Observava com desejo os seus dedos, seus olhos e pernas, busto, peitos, eu queria um dia estar encostado em sua pele macia e alva um dia. Mas não tinha chance. As demandas por ela eram altas, e quem era eu afinal, um rockeiro, que passeava com as menos desejadas, sentimento caridoso e solidário com os menos favorecidos, normal, desejava a paz.

Voltava na tarde, em silencio, amando ninguém. Meus desejos eram secretos, e nada importantes. O que fazer? Tudo era nada, e não tinha valor especial, era só seguir e seguir, crescer e aproveitar.

Alguma coisa acontece quando se fica quieto. Um ela apareceu, uma mulher, grande mulher, formosa, me seduziu, ela queria algo de mim, da minha vida, meu sexo. Ela obteve, mas não foi sem trilha sonora. Cada encontro em casa solitário era uma música tocando alto. Pantera, megadeth, metallica, black sabbath, e outras. Ela não dizia nada, eu também não, só escutava os discos todos enquanto ela me chupava e depois sentava. Era assim na semana, eu chegava atrasado na escola. E protestava no portão da escola fechado depois das uma e meia da tarde. “Ei, abram! Vocês não podem me privar de ensinar eu estava transando!”, poderia ser assim, mas era a ter a parte de eles me privarem.

As semanas passavam e eu continuava chegando atrasado, as vezes nem ia mesmo, perdia as aulas, perdia as provas, enquanto ela me chupava e me pressionava com sua buceta grande, meu pau médio de adolescente segurava ela, ela não se importava, ela gostava de estar num quarto transando e fazendo o que quiser com comigo, éramos solteiros e livres, ela me chamou, e eu não gostava mesmo de estudar numa sala de escola. Era uma ótima forma de ocupar a tarde e o tempo perdido.

Conversávamos também mais pouco. Ela nunca me falava nada de importante além daquilo que ela desejava. Ela esperava a concordância. Eu esperava o prazer, que ela me dava. O que fazer? Nada. Apenas deitar, e esperar, e se deliciar com arte que ela proporciona.

Chegava as quatro horas, ela saia. Ia embora para no dia seguinte voltar. O que queria afinal? Me reprovar? Eu reprovei.

Não sei por que me chamava de grande garoto, eu não gostava, não fazia sentido, eu não era grande, nem pequeno, era um garoto de estatura mediana apenas. Não entendia, mas ficava bem quando ela não falava nada, e falava apenas o essencial, as coisas reais, perguntava como eu queria, eu dizia, chupa meu saco, engole tudo, ela dizia também, me soca, e me bate, morde, e chupa essa buceta, eu fazia, eu gostava, eu suava, nós ficávamos suados, molhados, e íamos para o banheiro, ela era mais alta, tinha peitos grandes, tinha quadris largos, era uma mulher feita, tinha seus 27 anos e eu tinha 15, e o som tocava alto. Ela não se importava e nem eu.

Enquanto eu acertava de estar em sala de aula, nada, tudo ocorria bem, só esperava acabar tudo, para começar mais uma tarde de paixão, me deliciando num corpo de mulher exuberante, um corpo de cor parda. Era interessante, enquanto eu estava por cima dela, os nossos corpos em fusão, ela morena eu branco, entrando e saindo, um aceite e um deixe. Eu pequeno e ela grande abraçados nus a meia luz projetada pela janela com vista para o matagal, o verde reluzia a luz do sol da tarde quando o heavy metal parava, o disco tinha acabado. Olhávamos o teto, em silencio, ela me beijava, eu a beijava. Eu perdia as provas e testes escolares.

Então chegou o fim de ano, eu estava reprovado, não me importava, não fiz nada demais naquela escola, eu fui privilegiado durante várias tardes sem ir à escola. Eu ia para escola, mas não o suficiente para me manter aprovado por causa das faltas, e a falta de pontos para aprovação. Eu disse tudo bem, estávamos todos felizes, eu não havia sido o único reprovado. Mas não reprovei por motivos quais queres, eu abandonei os estudos da escola por uma mulher que se entregava para mim nas tardes da semana.

Por fim ela foi embora. Partiu de barco, sorriu comigo, rimos e nos despedimos, fomos felizes.

O vazio se abriu. E ficou as recordações. As boas memorias das tardes na cama, da agua brilhando com a luz do sol em seu corpo mulher, o matagal que nos esperava no quintal. Os cigarros acesos e as cervejas geladas que tomávamos, comtemplando a natureza. O som de suas ideias reverberando por sua boca, apenas sons desejos e prazeres, sem queixas, sem maldades, apenas o “olhe”, “quer”, “que bom”, palavras singelas que compactuavam com ela.   

A escola se repete Mais uma vez, todo se repete na escola, o tempo, as pessoas, os professores e as professoras. Mas será que se repete mesmo? Tanta coisa mudou no mundo fora da escola, o universo desaba e se remonta, a perplexidade no olhar de quem não vê. Os desejos sendo realizados, e outros se tornando pesadelos. Mas na escola, tudo está intacto, será? Os professores podem ser outros, mas o que deles pode ser verdade nesse mundo cheio de dúvidas que se impõe a realidade dos fatos. Aquele amparo de antes não sustenta mais os contos do passado. As velhas ideias são mesmas velhas? Quando estão sendo repetidas exaustivamente, fazendo se valer a autoridade de um professor carcomida por pensamentos arcaicos sobre os fatores de sobrevivência da existência em sociedade. O estado ainda arroga os detentores do saber não querendo ser, mas o sendo através das carcomidas ideias que digladiem a boa e velha ideia em que somos iguais perante deus e diferentes entre seres. Ainda se persiste na escola com o atraso da inteligência propedêutica que estimula o ensino preguiçoso com bases curriculares comuns que se dizem modernas. O tempo da escola é lento, pelo menos na escola do brasil. Ou de várias escolas, pode se contar nos dedos. O professor se supondo mestre, por que está numa área onde não existe espaço para dúvidas. Eles dizem está escrito, está relatado, está feito, é isso. Não poderia ser diferente esse caminho vergasto e insensível que cria desgostos e sentimento de revolta e decadência. Mas dizem que na escola uns se salvam. Sim se salvam, eles se erguem na solidão, quando não são amparados com pessoas honestas e sinceras que dizem, sigam e não parem na escola, projetem-se além desta realidade vazia, e insana, de opressão por notas, de ódio ao saber, descubra os livros que te proibiram ler, os documentários que de proibiram conhecer, o pensamento da liberdade que não te ensinaram. Esses que são aconselhados e seguem esses conselhos seguem em paz e podem prosperar, já outros também se dão bem, seguindo as regras dos jogos, se esforçando ao máximo para serem peças e engrenagens da manutenção da ordem da escola, mas só que agora na administração dessa ordem que muito deseja a mesma coisa com pouquíssima diferença. Na escola estávamos na cantina esperando o sino tocar. Elas estavam de calça comprida apertada e nos de tênis com cores verdes, azuis, pretos e brancos. Éramos jovens com emoções e desejos que iam além das aulas de química. Não queríamos estudar, as salas lotadas, e os ar condicionados poderiam servi-nos para nos acalmar, nos apascentar, mas não era o que acontecia. O sentimento de frustação ultrapassa meus dedos, e fazia tremer minha angustia, nada que fiz ali era algo importante, eram apenas copias e copias com lapsos de euforia programada quando ocorria a superação de algum teste. Mas existia algo importante sim, e não era o que a escola e seus métodos arcaicos e ideologizados propunham. Fiz outras coisas ao mesmo que admirava o saber distante de mim, seja na figura decadente do professor, seja nas revistas de ciências e livros que adquiria. O universo se abria em toda a sua dimensão e com o mínimo de orientação sobre a existência, o respeito, e ética, segui buscando a paz e a sabedoria. O saber era uma a ferramenta de poder, ler, escrever, pensar, criar acompanhavam minha inteligência e expansão intelectual. Não era o mesmo a cada mês, mas ainda assim dentro da escola eu era. La na escola era a mesma habito, não havia motivação, era apenas as repetições dos receituários. Mas pode pensar que havia coisas dentro das salas relacionadas ao saber que eram fundamentais, claro, o tempo de todo não estava perdido. Havia nas disciplinas o pouco que se pudesse aproveitar. O guia básico do básico do saber, nunca foi suficiente, sempre foi quase nada, passível de ser esquecido no próximo tempo. Era o que chamam de propedêutico. Ou básico do saber. Me pergunto agora por que? Por que tem que ser propedêutico? Por que tem de ser básico, limitado, e sem tempo e com pressa para que tudo esteja arranjado para o calendário. Acabei de escrever um pouco das minhas impressões da escola, no que tange ao ensino limitado, fragmentado, apressado e também desmotivado, como se os professores de fato só fossem cumprir seus horários, bater o cartão. Coitados, não tem culpa, não saberiam como poderia ser diferente. São ordenados a fazer cumprir a promessa de um calendário escolar. Ficam sobrecarregados, e amarrados ao conteúdo, não há estímulos constantes, mesmo que eventualmente ocorra uma emoção pela graça de uma inteligência que concebeu bem o que foi ensinado. O sino batia e a sala fica em polvorosa euforia, e havia também que se mantivesse em sentado, esperando a hora passar, o tempo acabar, o professor chegar. Então o tempo corria para o professor, alguns da sala já haviam se dispersado pelos corredores, outros já estavam em fuga ou escondidos em outras salas ou nos banheiros, esperando o momento oportuno para escapar daquela realidade incomoda que era a sala e o professor e todos aqueles alunos. No mundo fora da escola havia muitas outras coisas para se fazer e aprender, ou mesmo para não fazer nada e somente aproveitar o dia numa passeio na praia ou casa de amigos.