quarta-feira, 29 de abril de 2020


Breves cadeias

O som tocava alto enquanto eu dormia em minha cela silencioso, queria a paz de deus no meu lado ou uma boa companhia feminina nesses dias enclausurado. Mas nada podia sofrer mais do que isso, as dores ficavam constantes e o aperto no peito de minha ansiedade grosseira perturbava-me silenciosamente.

Ficar em casa de quarentena era um desafio para quem estava acostumado a bares e salas de aula com moças lindas na primeira fila, e com essas lembranças a dor que se alastra no peito e vai para a mente sussurrava no anoitecer deixando minhas em tensão.

Não conseguia dormir. Até que.

A vizinha ligou seu som. Era o bom e velho rock’in roll que se tocava no aparelho. E isso fez aquele silencio acabar. Aquela angustia aumentar. Ela estava só?  Estava bebendo, ela bebia, eu precisava de uma doze de algum conhaque ou o que for, queria na verdade estar bêbado, fazia tempo que não bebia e não caia no chão, eu tinha parado por alguma razão desconhecida, mas até então não tinha pensado em continuar. Queria ficar sóbrio, e isso era por ter que escrever algo que me obrigaram, e quando tudo passou, quando acabei, quando não tinha, mas nada que obrigaram a fazer eu dormi por horas e horas e dias, olhando o sol nascer e se pôr da varanda de onde estava. O nada era um apelo aos meus pesadelos naquele momento. De tanto pensar em me esquecer da vida realizando as minhas obrigações agora estava no nefasto universo do esquecimento.

Quando ouvi a música, senti o cheiro da liberdade que nem lembrava. Essa vizinha era uma ótima mulher, era separada, era bem-sucedida, era uma dama, solteira e linda de cabelos cacheados. Quando eu via ela momentaneamente, esporadicamente atravessando a rua indo para algum carro, ou nas escadas subindo ou descendo, lembrei que nunca havia ganhado um sorriso e nada nem um olhar fixo, nada mesmo, eu não representava nada de atrativo para ela, e esse pensamento foi a ideia que me persuadia a nunca tentar nada com ela, a não pensar nela.

Mas naquela manhã eu pensei nela de novo.

Acontece que viver assim em apartamentos nos faz ter dois tipos pensamento, um de se isolar e outro de se aproximar, eu escolhi me isolar, não queria problemas, não queria emoções. Queria a distância social como as que se falavam tanto nos jornais, antissocial é como me definia, e pensar nela agora, me fez pensar que ela também era antissocial, eu acho, não sei, talvez somente com a gente aqui desse prédio.

Quando ainda pensava nela assim que mudei para esse lugar, tinha esperanças em algo secreto, uma aventura, a minha mente conspirou para que alguma coisa acontecesse de interessante, mas não aconteceu, ainda bem, poderia fazer tudo errado como um bebum apaixonado, assustando pessoas falando bobagens. Por isso a opção para o isolamento foi uma atitude sensata.

Já fui bebum, já atrapalhei gente em suas tragédias pessoais, e interrompi sentenças com ideais radicais, e me cansei de leituras do absurdo, dessas leituras selvagens que nos desinibem nos fazer crer em fantasias delirantes com gente desconhecida. Ideias com estéticas revolucionarias que não nos levam a nada somente a profunda decadência da existência. E foi quando arranjei um emprego de escritor e transcritor, e outras coisas.

Então acordei com a música que faz tempo não ouvia. Era um rock clássico, algo como Little Richards, pensei imediatamente nas danças daqueles tempos, quanto alegria, estonteante, um ritmo de requebrar era ótimo, cada um com seus passos, criando danças, danças malucas, sensação boa de libertação, a vibração e a alegria juntas, sorrisos, e pessoas dançando, o que era ao contrário de tudo o que está sendo agora. A liberdade era quente, e mexia, e fazia muitos dançarem sorrindo, estalando os dedos, mexendo os cotovelos, os quadris, sapateando, mexendo os pés. Rebolando e requebrando, o rock libertava estava tocando para mais uma vez libertar os jovens, os velhos, as crianças, era alegria, como as danças antigas em volta da fogueira, fazendo cada um se divertir a sua maneira, rindo de tudo, rindo de todos.

Eu queria ver. Saber se ela também estava dançando. Se ela também requebrava e girava pela sala, ou mexia na cozinha, ou rodava a saia. Queria saber se podia sentar e olhar e ver o céu azul da sua janela enquanto bebia o vinha numa taça pronta para me virar e ver alguém rodando sem se importar com nada.

Poderia ir testar a liberdade, mas uma vez.

E fui

Bati à sua porta, no terceiro toque entendi que não atenderia, e a música tocava alto ali o suficiente para reverberar por todo o lugar de seu apartamento.

Então quando ia desistindo, ela abriu a porta. E me chamou para dentro. E disse que pensou e mim em algum momento, imaginou que eu ouvia rock, por que já tinha me visto com a camisa do Elvis.

Eu entrei e fiquei feliz, parecia que meus desejos estavam se realizando, e estavam. Não queria nada, não queria beijo, queria dançar, e ficar cansado, e dormir em paz comigo, ela me ofereceu vinho, e disse que estava preparando petiscos, e enquanto ela fazia os petiscos dançava na cozinha e ria, ria alto, eu também sorri, era a alegria que nos faltava.

As músicas antigas são divertidas, não tem maldade, era apenas alegria, e era isso que nos interessava. O som do piano, e da bateria, e a guitarra fazendo harmonia, e aquelas paradinhas que a música fazia para fazermos cantar.

Depois de entornar um copo de vinho eu me embriaguei e fui para a varanda da sua casa, ver a cidade no entardecer. Olhei para trás e ela dançava e cantava. Como poderia acontecer a verdade de meus sonhos sendo realizada. Não havia maldade.

Era um dia bom, uma noite que chegava boa. E bebemos, e dançamos, comemos, e quando nossas pernas não aguentaram caímos no chão da sala. E enfim depois de nos libertamos da agonia que a existência nos proporcionou dormimos enquanto a música tocava.   

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