sábado, 20 de junho de 2020

A casa de pedra

Ela gosta de beber com amigos, e escrevia também nos bares, adorava o cheiro podre, era escatológico os seus devaneios, um flerte com a escuridão e as luzes pouco iluminadas das ruas úmidas. Era dessa atmosfera que extraia poemas quentes de relacionamentos sujos, de sangue envenenado por entorpecentes carregados de arrepios e acostumados com a violência e a decadência humana.

Admiradores encontravam ela, eram poucos, mas muitos em seu coração, o suficiente para manter sua ordem, sua continua produção literária sobre o absurdo da vida nas ruas escuras e podres da existência.

Um dia encontrou num mesmo bar um outro escritor sujo. Esse era dos herméticos, falava e escrevia em sinais, em símbolos por caminhos abstratos da perspectiva ascendente. Ele via com lagrimas a doença e previa em seus escritos a boa razão da existência aquela mesma que proporcionaria a inteligência a placidez, a não exaltação diante do furo rasgado na memória da calça. Este também carrega um chapéu velho, e tinha dinheiro na carteira, a verdade era que não deveria estar ali, era estrangeiro, e por onde andou ganhou dinheiro, vinha de um outro universo, o universo prazenteiro das relações cordiais.

Ela perguntou por que andas aqui nesse bar imundo se fingindo de sujo como os mendigos. Ele disse que fazia parte da experiência, que não era tudo e que também não era nada. Que o mundo girava e não parava para ver de onde ele havia caído a primeira vez. Ela se irritou, com suas palavras, para ela o universo era a própria decadência e o desfrute era a sua penitencia, quem caminha entre palavras e planta palavras deve reconhecer os lados de cima os do de baixo, e se se atreve a misturar deve sofrer as consequências de um domínio que não pode abraçar.

Ele riu. Perguntou se havia entre as paredes algum rabisco que ao menos representava essa ladainha, e ainda disse que mesmo se houvesse tanto faz, a vida não é o doce clamor perdido da calamidade, é a faina na busca do melhor abrigo, e não a derrota que se diz que os ventos sopram.

Depois disso ela voltou a sua mesa e o deixou isolado tomando sua cerveja. Mas não parou assim. Na sua terceira cerveja de um litro, ele já cantava uma menina de cabelos coloridos, com uma pequena argola no nariz, mas ela não dava muita moral, enquanto ele sorria com o sinal sutil de seus braços moveis. Ele devia pensar, “é possível que nessa noite eu va dormir com ela, se ela não ter ninguém mais para dormir em uma cama”.

Então apareceu novamente a escritora. Que se sentou na mesa com ele novamente, e pagou uma cerveja, dessa vez conversaram amistosamente. Ela disse que não acreditava no mundo bom. Ele disse que o mundo era bom, as pessoas é que estragavam, completou com sua tese sobre o valor e poder da mente explanando que a mente reproduzia ou visualizava aquilo que deseja, era exprimia a ideia na mente daquilo que tinha foco. Ela por outro lado acreditava que tudo o que estava ali na existência era a prova de uma realidade sórdida, de uma condição que poderia se dizer natural e perversa e que as ordens que sustentavam a realidade pró civilidade é que seguravam as pontas, e que por sua vez não deixassem que a realidade se consolidassem completamente sórdida. E que era na noite que os animais selvagens contidos do dia se soltavam, era no escuro das ruas que as pessoas se transformavam, que a realidade sem mascaras vinham à tona. Ele se impressionou com fugacidade da tese dela, em parte era isso que acreditava também, não negava. Mas disse também que nesse estágio que ela chamava de pura realidade era também o puro nada, a ausência da razão e o animalesco sentido do humano, não havia humano civilizado, havia nesse estágio o selvagem a consolidação, e que era exagero pensar que isso era absoluto. Em qualquer era o que se deseja é paz e sossego, e que talvez pessoas fazem o que fazem na escuridão por que tem a segurança das sombras, ao mesmo tempo que primam por sua integridade e identidade.

Ela concordou. Aquela conversa não era um debate para se levantar sobre quem tinha mais razão, ele não representava a luz e ela tão pouco a escuridão. Ambos trafegavam nas sombras, ele durante a luz, ela durante a noite. Da mesma forma, concluiu ele, os absurdos da noite ocorrem durante o dia, existem praças públicas que demonstram isso, havia sempre quem não tinha vergonha de fazer o que se deseja, das mais insanas ações às mais escatológicas.

Ela pediu a ele um poema de improviso, que ele falou no seu ouvido.

A doce mulher que anda

Na escuridão e procura a paz da solidão

Nas ruas escuras

Pouco claras

Sua mente tem desejo de ser toda sanada

Pelas dores do dia

Um descanso numa cama macia

Um amor que a domine na noite

E a deite e ame nos seus pelos

Um gozo sereno em cada entrada

Ela ama o corpo que deita com ela

E aquece os seus sentidos de paixão

Amar um que seja seu sempre

Para cada noite que voltar do dia 

 

Ela gostou do poema, e pediu para subverte-lo, ele riu e assentiu.

 

A doce mulher procurando a paz

Se perdeu na esquina

Encontrou um bar e bebeu solitária

Encontrou um safado que desejou

Ela cedeu e deixou-se levar para as sombras

Nas sombras ela consentiu

Desceu as calças e se abriu

Por traz o falo entrou, ela gemeu

Ele mordeu levemente seu ombro

Ela gemeu.

O gozo durou lá dentro e se espalho por sua vulva

Ela estava melada, e choveu

A noite úmida o corpo pediu mais

O sexo não arrefeceu sua paixão

Ele perdeu

Ela ganhou

Saiu e o deixou. Voltou para mesa

Pediu mais uma cerveja, quis dormir

Alguma outra mulher. A cuidou na casa de pedra.   

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Te olhei

Você estava pelada. Sempre usava calça, meu sonho era esse que estou agora, te ver tirando a calça, te ver tirando sua calcinha, te ver nua.

Demorou muito, anos, mas eu acreditei, talvez numa dessas minhas orações, nas minhas poesias, nos pensamentos, as cordas do cosmo balançaram e levaram minhas ondas até você, deu certo.

Dia e noite eu dormia pensando se veria um dia você de calcinha. Um dia por acaso você mandou um vídeo em que falava, uma voz mansa eu ouvi, um desejo ardente me tomou a consciência, eu queria saber como era ouvir de perto a sua voz. Queria ir além, queria escutar também sua respiração. Quem sabe ouvir seu coração.

Deu certo, me esforcei, aprendi alguma coisa que me levasse, e fiz o que tinha que fazer com o que já sabia. Eu queria você, e isso me motivou, a fazer coisas, a aprender, a esquecer o passado. Quando se deseja muito. Se encontra motivações para mudar, para buscar ser melhor. Para estar o mais próximo possível, o mais antes possível também.

Mas quando não era assim, quero dizer, na busca por você, eu tentava falar contigo, mandava as minhas poesias. Mandava meus desenhos, pedaços da minha vida. Era detalhes do meu desejo, mas não queria parecer louco ou aficionado por seu você, por isso te esquecia, sim, eu te esquecia, mas não completamente. Eu apenas esquecia a sua imagem, para que pudesse um dia ver de novo.

Um dia você me respondeu. Comentou a minha poesia. Eu disse a mim mesmo, fisguei! Mas não, imediatamente, deixei de pensar assim, decidi, não pensar que tinha algo. Havia muitos que também ti escreviam, te adorando também, assim come eu, pessoas desejosas de saber mais sobre você, mas isso não importava, eu escrevia poesias em sua homenagem, agora era a minha musa, o sonho idílico de um ultrarromântico, que bebia com a solidão o desejo de um dia encontrar a sua paixão, a mulher que escolheu amar no universo, criando fantasia e enredos fantásticos de encontros idílicos. Quem sabe um dia. Era um delírio apaixonado.

Mas não passou disso. Me contive, fiquei calmo e esqueci. Não vi mais você. Até um mês depois.

Continua linda e impávida. Deslumbrante. Quem esperava? Ou estava solteira. Algum lugar especial que frequentava. Eu não saia, não conhecia pessoas, me desvencilhei de pessoas excessivas. Não me fazia bem, queria a paz e a solidão. Poucos já me informavam o suficiente sobre tudo aquilo que me interessava. A vida comum, a vida banal, a vida para ser vivida, simples, apreciando a arte a existência, os livros, na minha mão diziam mais que palavras vindas de outros. A internet apresentava pessoas boas, mas que mesmo sendo preferiria que ficassem assim distantes. Quem sabe um encontro ocasional, fortuito encontro cósmico, de acasos e coincidências. Era a mesma coisa com você. Linda e difícil. Uma beleza grega, de deusas, de musas, de sabedoria, romântica como Afrodite, sensual como Afrodite. Era humana, mas era também deusa, eu via assim, as leituras me fizeram pensar assim, no sacro corpo que te cobria, na volúpia e na grandeza de uma deusa sedutora que toma o amante e o leva as alturas e depois de lá o joga. Podia ser assim? Ou podia ser uma mulher com segredos, com uma esfinge luxuosa e sibilar. Tudo como queria, que fosse, mas que trouxesse sob suas roupas sua calcinha de renda. E era o meu desejo final? A consumação.

Um dia te vi. Na vida real. Não, não, não era na imagem da internet. Era você de verdade. Num supermercado, andando no corredor de gelados. Imaginei que procurava iogurte, ou sorvete. Mas você só estava passando e olhando as coisas, na verdade eu lembro, você pegou uma manteiga. Eu ri. O cotidiano era engraço. O banal era cômico no seu silencio trivial. Não pensar, apenas fazer o que deseja, como um autômato. Desculpe, posso parecer esnobe, mas não sou, respeito todos, nas suas trivialidades, as vezes são engraçadas, as vezes são apenas movimentos no espaço, expressões concretas da ação e do desejo. O engraçado em te ver, foi a minha contradição, eu que acreditava você ser uma deusa, não era, era uma mulher linda, na terra, agindo como uma mulher, não estou dizendo que não tinha nada de especial. Era tudo especial, era você ali, próximo de mim, como eu, o universo me trouxe a sua imagem presente naquele lugar. E aquilo era a essencial da existência. A vida sendo vivida, a realização da matéria e da alma. O ser não era virtual. Era o ser humano de prazeres, desejos e fomes.

 

terça-feira, 2 de junho de 2020

perdidos

deixou as armas no chão
e caiu
levantou depois de duas horas
esquecido
não queria mais nada
além de uma cama

queria também um sanduiche de esquina
abandonou o bom senso
encarou com violência o desejo
levou as consequências
o que fazia do homem com fome
tornava explicito a sua agonia
como pedir
o que queria

chorou por que não sabia
mais para onde ia
como ir para casa
se levou tudo perdido na vida
como voltar do nada
se perdeu o que restava

se enganou desde o inicio
o mundo é uma mentira
alguma coisa que repetia
na sua mente
no seu corpo
cicatrizado
será que foi na escola?

pode ser
hoje acorda

foi o que?
seu pai e sua mãe pouco sabiam
nunca os viam
seus amigos pouco sabiam
nunca se tinha um amigo
era tudo rápido
um dia perdido
após outro
um mês
um ano
a vida
fazendo planos
um encanto com as meninas lindas
o que dizer ?

quando leu os livros perdidos
aprendeu
era um poesia
que salvou
nas lagrimas que deixou 
Cara e ostras

Caminhava pelo céu de pedras da tarde
uma luz que leva seu espelho
no arrebol
parecia com velas
mas era um mar sonolento que passava

o vento soprava imagens na mente
a mente vibrava um entusiasmo qualquer
sobre uma alegria qualquer
o tempo
as floresta como fronteira
as folhas como esteiras
e as areias sendo brancas iluminadas pela lua
fazia o caminho ser mais fácil de se chegar

não tinha caminho
era um lugar
onde a agua beijava a praia
o horizonte azul estrelado

e a bola que cruzava de vez e quando
o caminho indo
pulando sem parar
até sumir no espaço
até voar e fazer um giro fantástico

tinha um cheiro de flor e mar
ela era uma miragem distante
um espelho refletindo?
ou a ilusão do anjo feminino
que vinha para me beijar

o mar fazia seu típico som
de mare molhando a praia
marcas de passos
era meus passos no passado
onde eu um dia passei andar
quando me lembrei que não estava lá

minha cara era com um sorriso
as ostras que catei
coletei numa bolsa
nos meus bolsos que carreguei
areia, a mesma areia de um lugar
distante no litoral
nunca mais viria?

como voltei
meus desejos me trouxeram
foram esses poemas que me levaram
com minhas calças molhadas pela agua salgada
e ao longe avistei
a moça
as moças
que nunca tive
que nunca terei
admirei a silhueta
devo admitir eram mulheres da rua
prostitutas belas e encantadas
deixei
só ganhei o leve agrado
o grande sorriso
e o perfume passageiro de seus seios

acordei
com vontade de sonhar