Te olhei
Você estava pelada. Sempre usava calça, meu sonho era esse que estou agora, te ver tirando a calça, te ver tirando sua calcinha, te ver nua.
Demorou muito, anos, mas eu acreditei, talvez numa dessas minhas orações, nas minhas poesias, nos pensamentos, as cordas do cosmo balançaram e levaram minhas ondas até você, deu certo.
Dia e noite eu dormia pensando se veria um dia você de calcinha. Um dia por acaso você mandou um vídeo em que falava, uma voz mansa eu ouvi, um desejo ardente me tomou a consciência, eu queria saber como era ouvir de perto a sua voz. Queria ir além, queria escutar também sua respiração. Quem sabe ouvir seu coração.
Deu certo, me esforcei, aprendi alguma coisa que me levasse, e fiz o que tinha que fazer com o que já sabia. Eu queria você, e isso me motivou, a fazer coisas, a aprender, a esquecer o passado. Quando se deseja muito. Se encontra motivações para mudar, para buscar ser melhor. Para estar o mais próximo possível, o mais antes possível também.
Mas quando não era assim, quero dizer, na busca por você, eu tentava falar contigo, mandava as minhas poesias. Mandava meus desenhos, pedaços da minha vida. Era detalhes do meu desejo, mas não queria parecer louco ou aficionado por seu você, por isso te esquecia, sim, eu te esquecia, mas não completamente. Eu apenas esquecia a sua imagem, para que pudesse um dia ver de novo.
Um dia você me respondeu. Comentou a minha poesia. Eu disse a mim mesmo, fisguei! Mas não, imediatamente, deixei de pensar assim, decidi, não pensar que tinha algo. Havia muitos que também ti escreviam, te adorando também, assim come eu, pessoas desejosas de saber mais sobre você, mas isso não importava, eu escrevia poesias em sua homenagem, agora era a minha musa, o sonho idílico de um ultrarromântico, que bebia com a solidão o desejo de um dia encontrar a sua paixão, a mulher que escolheu amar no universo, criando fantasia e enredos fantásticos de encontros idílicos. Quem sabe um dia. Era um delírio apaixonado.
Mas não passou disso. Me contive, fiquei calmo e esqueci. Não vi mais você. Até um mês depois.
Continua linda e impávida. Deslumbrante. Quem esperava? Ou estava solteira. Algum lugar especial que frequentava. Eu não saia, não conhecia pessoas, me desvencilhei de pessoas excessivas. Não me fazia bem, queria a paz e a solidão. Poucos já me informavam o suficiente sobre tudo aquilo que me interessava. A vida comum, a vida banal, a vida para ser vivida, simples, apreciando a arte a existência, os livros, na minha mão diziam mais que palavras vindas de outros. A internet apresentava pessoas boas, mas que mesmo sendo preferiria que ficassem assim distantes. Quem sabe um encontro ocasional, fortuito encontro cósmico, de acasos e coincidências. Era a mesma coisa com você. Linda e difícil. Uma beleza grega, de deusas, de musas, de sabedoria, romântica como Afrodite, sensual como Afrodite. Era humana, mas era também deusa, eu via assim, as leituras me fizeram pensar assim, no sacro corpo que te cobria, na volúpia e na grandeza de uma deusa sedutora que toma o amante e o leva as alturas e depois de lá o joga. Podia ser assim? Ou podia ser uma mulher com segredos, com uma esfinge luxuosa e sibilar. Tudo como queria, que fosse, mas que trouxesse sob suas roupas sua calcinha de renda. E era o meu desejo final? A consumação.
Um dia te vi. Na vida real. Não, não, não era na imagem da internet. Era você de verdade. Num supermercado, andando no corredor de gelados. Imaginei que procurava iogurte, ou sorvete. Mas você só estava passando e olhando as coisas, na verdade eu lembro, você pegou uma manteiga. Eu ri. O cotidiano era engraço. O banal era cômico no seu silencio trivial. Não pensar, apenas fazer o que deseja, como um autômato. Desculpe, posso parecer esnobe, mas não sou, respeito todos, nas suas trivialidades, as vezes são engraçadas, as vezes são apenas movimentos no espaço, expressões concretas da ação e do desejo. O engraçado em te ver, foi a minha contradição, eu que acreditava você ser uma deusa, não era, era uma mulher linda, na terra, agindo como uma mulher, não estou dizendo que não tinha nada de especial. Era tudo especial, era você ali, próximo de mim, como eu, o universo me trouxe a sua imagem presente naquele lugar. E aquilo era a essencial da existência. A vida sendo vivida, a realização da matéria e da alma. O ser não era virtual. Era o ser humano de prazeres, desejos e fomes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário