A casa de pedra
Ela gosta de beber com amigos, e escrevia também nos bares, adorava o cheiro podre, era escatológico os seus devaneios, um flerte com a escuridão e as luzes pouco iluminadas das ruas úmidas. Era dessa atmosfera que extraia poemas quentes de relacionamentos sujos, de sangue envenenado por entorpecentes carregados de arrepios e acostumados com a violência e a decadência humana.
Admiradores encontravam ela, eram poucos, mas muitos em seu coração, o suficiente para manter sua ordem, sua continua produção literária sobre o absurdo da vida nas ruas escuras e podres da existência.
Um dia encontrou num mesmo bar um outro escritor sujo. Esse era dos herméticos, falava e escrevia em sinais, em símbolos por caminhos abstratos da perspectiva ascendente. Ele via com lagrimas a doença e previa em seus escritos a boa razão da existência aquela mesma que proporcionaria a inteligência a placidez, a não exaltação diante do furo rasgado na memória da calça. Este também carrega um chapéu velho, e tinha dinheiro na carteira, a verdade era que não deveria estar ali, era estrangeiro, e por onde andou ganhou dinheiro, vinha de um outro universo, o universo prazenteiro das relações cordiais.
Ela perguntou por que andas aqui nesse bar imundo se fingindo de sujo como os mendigos. Ele disse que fazia parte da experiência, que não era tudo e que também não era nada. Que o mundo girava e não parava para ver de onde ele havia caído a primeira vez. Ela se irritou, com suas palavras, para ela o universo era a própria decadência e o desfrute era a sua penitencia, quem caminha entre palavras e planta palavras deve reconhecer os lados de cima os do de baixo, e se se atreve a misturar deve sofrer as consequências de um domínio que não pode abraçar.
Ele riu. Perguntou se havia entre as paredes algum rabisco que ao menos representava essa ladainha, e ainda disse que mesmo se houvesse tanto faz, a vida não é o doce clamor perdido da calamidade, é a faina na busca do melhor abrigo, e não a derrota que se diz que os ventos sopram.
Depois disso ela voltou a sua mesa e o deixou isolado tomando sua cerveja. Mas não parou assim. Na sua terceira cerveja de um litro, ele já cantava uma menina de cabelos coloridos, com uma pequena argola no nariz, mas ela não dava muita moral, enquanto ele sorria com o sinal sutil de seus braços moveis. Ele devia pensar, “é possível que nessa noite eu va dormir com ela, se ela não ter ninguém mais para dormir em uma cama”.
Então apareceu novamente a escritora. Que se sentou na mesa com ele novamente, e pagou uma cerveja, dessa vez conversaram amistosamente. Ela disse que não acreditava no mundo bom. Ele disse que o mundo era bom, as pessoas é que estragavam, completou com sua tese sobre o valor e poder da mente explanando que a mente reproduzia ou visualizava aquilo que deseja, era exprimia a ideia na mente daquilo que tinha foco. Ela por outro lado acreditava que tudo o que estava ali na existência era a prova de uma realidade sórdida, de uma condição que poderia se dizer natural e perversa e que as ordens que sustentavam a realidade pró civilidade é que seguravam as pontas, e que por sua vez não deixassem que a realidade se consolidassem completamente sórdida. E que era na noite que os animais selvagens contidos do dia se soltavam, era no escuro das ruas que as pessoas se transformavam, que a realidade sem mascaras vinham à tona. Ele se impressionou com fugacidade da tese dela, em parte era isso que acreditava também, não negava. Mas disse também que nesse estágio que ela chamava de pura realidade era também o puro nada, a ausência da razão e o animalesco sentido do humano, não havia humano civilizado, havia nesse estágio o selvagem a consolidação, e que era exagero pensar que isso era absoluto. Em qualquer era o que se deseja é paz e sossego, e que talvez pessoas fazem o que fazem na escuridão por que tem a segurança das sombras, ao mesmo tempo que primam por sua integridade e identidade.
Ela concordou. Aquela conversa não era um debate para se levantar sobre quem tinha mais razão, ele não representava a luz e ela tão pouco a escuridão. Ambos trafegavam nas sombras, ele durante a luz, ela durante a noite. Da mesma forma, concluiu ele, os absurdos da noite ocorrem durante o dia, existem praças públicas que demonstram isso, havia sempre quem não tinha vergonha de fazer o que se deseja, das mais insanas ações às mais escatológicas.
Ela pediu a ele um poema de improviso, que ele falou no seu ouvido.
A doce mulher que anda
Na escuridão e procura a paz da solidão
Nas ruas escuras
Pouco claras
Sua mente tem desejo de ser toda sanada
Pelas dores do dia
Um descanso numa cama macia
Um amor que a domine na noite
E a deite e ame nos seus pelos
Um gozo sereno em cada entrada
Ela ama o corpo que deita com ela
E aquece os seus sentidos de paixão
Amar um que seja seu sempre
Para cada noite que voltar do dia
Ela gostou do poema, e pediu para subverte-lo, ele riu e assentiu.
A doce mulher procurando a paz
Se perdeu na esquina
Encontrou um bar e bebeu solitária
Encontrou um safado que desejou
Ela cedeu e deixou-se levar para as sombras
Nas sombras ela consentiu
Desceu as calças e se abriu
Por traz o falo entrou, ela gemeu
Ele mordeu levemente seu ombro
Ela gemeu.
O gozo durou lá dentro e se espalho por sua vulva
Ela estava melada, e choveu
A noite úmida o corpo pediu mais
O sexo não arrefeceu sua paixão
Ele perdeu
Ela ganhou
Saiu e o deixou. Voltou para mesa
Pediu mais uma cerveja, quis dormir
Alguma outra mulher. A cuidou na casa de pedra.
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