A sonho perdido
Nessa vez que se faz palavra sua intenção como todas as
outras era permanecer, incólume e invariável o sonho se apegava a existência da
realidade fugidia, onde pudesse ir, seja para ficar ou partir, o sonho
perseguia. O que de fato seria o tempo para o sonho perdido. Em outra hora era
apenas desespero, em outra um pacientar de regozijos, mas nada lhe escapava até
que decidisse ir e vagar novamente até encontrar outras palavras.
Desta vez derradeira, estava ela num copo vazio, por que lá
tinha pousado e lá tinha se estendido. Variava no seu desperdício e quando
assim de destilava até virar fumaça solida. Isso acontecia e atraia também sentimentos
de desejo, e sempre que acontecia alguém difuso e perdido era magnetizado por
esses anseios de sonhar. Trazia esperança e mais angustia, quando nada podia,
trazia alegria.
Um incauto sonhador, um desses que permanecia da aquarela
dos pintares, fazia sempre imagens distorcidas da realidade. Bebeu no copo onde
repousa o sonho perdido, quando tomou as doses misturadas de álcool e sonho
perdido. Um instante de languidez, e um soar de alegria reverberavam a mente
acostumada ao som da tinta. Era provável que poderia padecer entorpecido, pois
depois da primeira talagada exigia seu corpo mais e mais antíteses dos seus devaneios.
Não era o que esperava naquela tarde qualquer, era uma exigência comum, mas a surpresa
diluída no copo o estendeu ao furor efusivo. Em pouco tempo de bebidas no copo
do sonho perdido, já havia feito amigos e inimigos.
Quem não gostava de ver um sujeito pintando o plasma dos
seus olhos retinindo a alvorada da lua clara no horizonte infindo da floresta. E
a quem negaria a razão disso tudo por que para si não fazia qualquer sentido.
Mas pouco importava se faria a diferença alguma na
realidade. todos ali naquela comunidade faziam a sua parte até quem nem sequer
se metia fazia algo necessário, seguir suas próprias vidas. Mas quando um
pintor qualquer de aquarela se esfuzia a visível satisfação no ar.
Desta forma até o fim o sonho perdido, se desfez e se
concretiza no olhar de aquarela desenhado no quadro. Mas ela não ficaria ali
por muito tempo até que se bastasse e se desconfortasse em alguns minutos. Até a
alegria do pinto se assemelhar ao horizonte distante e divagar sobre por que
viver isso e se deitar.
Assim mais uma vez o sonho iria percorrer copos, livros,
letras, pinturas, e todo o tipo de anseio, ou mesmo na oca toca de um índio relaxado
ouvindo permanentemente o som das florestas.

